TEXTOS e CRÍTICAS
English and Portugues
Axioma.8
Festival Música Estranha
O que percebemos quando percebemos? Da filosofia à fenomenologia, semiótica da cultura às teorias da comunicação, do biológico ao simbólico... as respostas seriam tantas que passaríamos o resto de nossas vidas discordando e concordando em iguais proporções. Por isso, mais do que buscar o entendimento sobre a percepção em si, o contemporâneo tem se apropriado dos argumentos e entregue aos artistas a função de provoca-lo, desconfiá-lo, desafiá-lo. Esse é o contexto intencional que Mirella e Muep constroem para suas apresentações. Sem qualquer pretensão de simplificar as experiências perceptivas, imagens e sons, luzes e ruídos são articulados afim de fundarem uma narrativa capaz de convidar as percepções a transformações. Suas instalações performativas bem podem ser compreendidas como performances instalativas sem qualquer perda conceitual, entendendo o próprio receptor ou público como objeto instalativo da performance. No entanto, o que se configura de modo mais profundo é a experienciação da narrativa naquilo que lhe confere um convívio fílmico, ou seja, mais próximo ao que temos comumente por cinematográfico. Uma espécie de cinema mental onde as imagens são individualizadas a partir das próprias sensações e traduzidas a uma narrativa intransferível, ainda que comum. O axioma trazido ao título do espetáculo lumino-sonoro está na dialética de ser o espectador um princípio de observação, portanto, e não apenas um mero receptor dos estímulos. Também por isso a narrativa é o aspecto mais complexo ao apresentado, uma vez caber-lhe a materialidade reveladora dos princípios norteadores dessa observação. Pode ser o 8o axioma, pode ser sua identificação infinita, propositadamente não se esclarece se numeral ou símbolo, deixando ao público individualizar a conclusão. Se contagem, então é preciso lidar com a existência de experiências anteriores, talvez até mesmo necessárias ao acesso mais profundo da narrativa. Se simbólico, o infinito qual representa olha ao por vir tendo o instante que se viverá como possibilidade de início. Escolhido um ou outro, encontra-se o indivíduo na urgência de sua tradução. Ou presentificando um roteiro, ou presentificando uma jornada. Assim, o espetáculo provoca, desde sempre, a presença do espectador enquanto objeto máximo de sua realidade. Lidando com matérias, sobretudo, luz e som, Mirella e Muep conquistam a ambiência como amplitude máxima para afirmação dessa realidade. Não mais a realidade qual estamos, mas outra, a qual compartilhamos em estado cênico de presença. Daí que som e luz são indissociáveis e parecem dançar suas materialidades aos ouvidos e olhos. Axioma.8 intensifica as experiências recentes dos dois artistas e revela uma maturidade especial no reconhecimento de suas próprias radicalidades, tornando-os especiais ao que podemos ainda descobrir nas artes brasileiras.
Revista ANTROPOSITIVO
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As a critic of the performing arts I have often accompanied the emergence of artist creations. A few times I come across original research, whose aesthetic proposals have a really unique signa- ture. This is exactly what happened with Mirella Brand and Muep Etmo.
Their performances build a specific ambience through the intersection between light and sound, offering the audience a unique radical and playful experience, capable of reinventing the under- standing of values such as scene, narrative, music, aesthetics, sign, presence, participation and so many other aspects . It is open shows to the cultures that are placed enlarging the dimension of the encounter between all the involved ones.
The experience provoked by their performances can extend to the audience of the performing arts the very language of the theater by being more expansive in front of the shows with
more recognizable and traditional characteristics. A great opportunity to offer other looks and openings, which seems to me to be always special to the fortifications of new spectators.
I hope the festival gets a kick out of this meeting with Brand and Etmo how much the artists have been encouraging me in the last year.
Ruy Filho
Member of the International Association of Theater Critics.
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Ao mergulhar numa performance de Mirella Brandi x Muepetmo ficamos cercados por uma outra realidade onde a luz e o som transformam todo o ambiente a nossa volta em imersivo e multidimensional sem a necessidade de vestirmos qualquer dispositivo tecnológico.
Ao proporcionar a diluição completa da janela cinematográfica, a narrativa abstrata proposta pelo duo coloca o espectador num embate direto com o espaço fílmico e sua imaginação como protagonista.
Demétrio Portugal
Curador e Idealizador do AVxLab
(Grupo de mapeamento e incentivo às pesquisas de Cinema Expandido)
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mirellaxmuep
A percepção do espetáculo-performance muda de acordo com a escolha onde sentamos: na platéia ou no próprio palco, juntos com os artistas. A subjetividade nesse espetáculo-performance fica mais aguçada e é preciso ver a obra mais de uma vez para que possamos degustá-la, para tornar-mos consciente da experiência vivida.
Enquanto público, ainda somos acostumados a perceber a luz cênica apenas como mero coadjuvante ou como parte de algo maior. Nós, enquanto espectadores, sempre enxergamos - mesmo que inconscientemente - a luz como se ela estivesse a serviço de uma outra arte “superior”. No dueto mirellaxmuep, isso felizmente não acontece. O dueto-dialogo é uma mistura perfeita entre luz e som. Em vários momentos temos a sensação de que a musica completa a luz e vice versa. É como se a sonoridade desse voz a luz para que ela pudesse se verbalizar ou simplesmente gritar: em formas, cores, volume e atmosfera. O que os artistas fazem no palco é muito mais do que uma performance de som e luz. O que eles fazem no palco é uma revolução. É a luz voltada para si, para o que ela tem a dizer e ser. Em A.N.T.E S, ela, a luz, não é a antagonista da noite, mas a protagonista.
Nesse flow entre luz e som que se auto-alimentam, vamos, aos poucos sendo“convidados” a uma viagem onde a percepção vai ganhando contornos de aspectos que nossa mente não conhecia anteriormente. Uma espécie de viagem-sensação semelhante ao sonho ou êxtase. Os artistas conseguem com poucos recursos - independente do espaço/teatro - criar um universo cinematográfico. Isso se chama criatividade. E parece que é aí, na falta, na escassez, na dificuldade que os artistas nutrem uma habilidade única de tecer o quase-impossível.
Em A.N.T.E S, a luz precisa do som, como o som precisa da luz. Uma existência no corpo de outro ser… O melhor dueto-diálogo-simbiose entre dois artistas de vanguarda.
Clébio Oliveira
Bailarino e çoreógrafo
www.clebio-oliveira.com" target="_blank">www.clebio-oliveira.com
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É no invento de uma outra linguagem possível que Mirella Brandi e Muep Etmo criam em Transtorno atributos cognitivos e sensoriais para que luminosidade e sonoridade ergam ao espectador uma narrativa própria. Não se trata, pois, de conquistar a narrativa como resposta estética, mas de tornar a ação de construção de narrativa o próprio principio.
Tenho chamado a isso de narrativação. e é extremamente raro vê-la ocorrer com a qualidade com q esse dois artistas estão realizando.
Mudar a percepção da linguagem é realizar a impossibilidade de outra realidade.
Para isso serve a arte. para nos revelar o quanto ainda podemos ser radicalmente diferentes.
Ruy Filho
Crítico e Editor chefe da revista de arte Antro Positivo Sobre o Espetáculo TRANSTORNO 2018
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Os espetáculos da Mirella e do Muep me tocaram primeiramente na minha fisiologia, me trouxeram sensações internas, viscerais ligadas aos meus orgãos, ao meu coração, às minhas vísceras, aos meus ossos. Uma experiência, muitas vezes desconfortável, pelo fato de não receber narrativas que eu possa decodificar num primeiro momento, ou algum formato mais reconhecido que possa me reconfortar. Mas é fascinante se deparar com o indecifrável.
Se entregar ao que é proposto possibilita entender o que é viver, literalmente, uma experiência cênica.
A dupla de artistas conduzem uma dramaturgia que acessou conteúdos meus, inconscientes, fez criar dentro de mim imagens, cenas e símbolos que em definitiva são como se eu assistisse a mim mesma. Esses conteúdos sempre surgem a cada novo espetáculo e vão criando em mim o desejo de permanecer alí por muito mais tempo e de esperar sempre ansiosa pelo próximo trabalho, pela próxima experiência viva que eles nos proporcionarão.
Natalia Mallo
Diretora Artística e Curadora de Artes Cênicas
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CRUSH
CRUSH is a courageous and provocative performance. Benefitting from the hybrid languages and from the varied uses of technological resources, the performance gathers powerfully contemporary qualities. Its experimental mark alters the event’s manifestation position, removed from the mere visibility on the stage to the creation of sensations derived from the spectator’s perception.
The performer’s body on the scene plays with duration, Intensity and scope of light and sound, both appropriate and uniquely operated at each performance. Dissimulation – to the point of making itself almost not visible – gives this body a prominence other than sheer physical virtuosity.
Therefore, in his perception, the spectator has no longer the role of witness: taken inside the performance, he becomes an accomplice.
José Tonezzi
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SET UP TO FAIL
Quando Richard Wagner construiu a ideia de uma obra total de arte tinha por princípio oferecer todas as possibilidades de experiências estéticas de uma única vez. Assim, simultâneas, elas haveriam de preencher o espectador de forma completa.
Ontem, porém, Mirella Brandi, Muep Etmo, Lucas Bambozzi, Natalia Mallo e uma dezena de convidados propuseram algo mais íntimo ao espectador trazendo uma a uma as experiências durante o percurso que realizamos pelos diversos espaços do edifício. Assim, imagem, som, luminosidade, ambiências, performatividade, presença são encontrados e se acumulam sem pressa na construção da narrativa fílmica que não se quer mais na tela, mas no próprio espectador e sua relação com o espaço. Somos e estamos personagens, portanto. Somos e estamos o próprio filme nos intervalos entre as instalações, vídeos, performer.
A graduação das experiências invade sutilmente, cumulam-se e a resposta é gigantesca. Saio do teatro querendo um pouco de silêncio em mim, volto para casa caminhando e percebendo a cidade diferente. Ela também me parece um filme em construção. Como nunca havia sentido isso?
Quando pensamos sobre espetáculos cênicos logo imaginamos produções impactantes. Mas e quando forem espetáculos fílmicos, que não se resumem às telas e projeções?
Não tenho como agradecer o grau de deslocamento de meu olhar sobre o real, o entorno, a estética viva da vida, a ficcionalização de minha presença no real, que esses artistas me trouxeram.
Muitos me pedem dicas do que assistir, então, aviso, não percam!
Ruy Filho
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Sobre FFobia Setor:
FOTOFONOFÓBICOSOMÁTICO
mirella brandi x muepetmo
por: Welington Andrade
“... o espectador deixava-se arrastar pelo jogo de sensações, de percepções experimentadas. A dimensão cognitiva que permanecia presente revela-se inoperante pelo fato de não esclarecer minimamente o espetáculo. O espectador era antes confrontado com uma instalação espacial que o incluía e o excluía ao mesmo tempo. Ele não tinha que compreender nada, mas sim experimentar”. Josette Féral, Além dos limites: teoria e prática do teatro.
Fot(o), elemento de composição
Phos, photós, em grego: luz
Foto: que se documenta em numerosos compostos introduzidos nas línguas modernas de cultura, a partir do século XIX, como fotografia, fotometria, fotosfera etc.
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Fon(o), elemento de composição
Phoné, em grego: som, voz
Fone: que se documenta em vocábulos eruditos, alguns formados no próprio grego, como fonético, e alguns outros introduzidos, a partir do século XIX, na linguagem científica internacional.
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Fob(o), elemento de composição
Phóbos, em grego: medo, pavor
Fobia: designação genérica das diferentes espécies de medo mórbido
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Som(a), elemento de composição
Soma, -atos, em grego: o corpo em oposição à alma
Somático: relativo ao corpo
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Corpo
Somatizando luz e som
Fotofilia expressando fotofobias
Fonofilias expressando fonofobias
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Luz-símbolo
Luz-metáfora
Luz-limite
Luz-resultado
Corpo fobicamente disforme
Luz: primeiro aspecto do mundo informe
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“Embrenhando-se na sua direção, entra-se num caminho que parece poder levar além da luz, isto é, além de toda forma, mas, igualmente, além de toda sensação e de todo conceito”. André Virel, Histoire de notre image.
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Som-símbolo
Som-metáfora
Som-movimento rítmico
Som-movimento vibratório
Corpo não manifestado, corpo sutil, corpo articulado
O que é desprovido de som é o próprio princípio
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“O som é percebido antes da forma, a audição é anterior à visão. De shabda nasce o bindu, ou germe da manifestação. Por analogia, o nascimento individual é às vezes designado como um som”. Jean Chevalier e Alain Gheerbrant, Dicionário de símbolos.
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A luz e o olho: simbologia e ciência
Serafis e Ísis no antigo Egito eram chamados de phos.
Os nomes dos deuses celestes indo-europeus Dyaus pitar (no mundo védico), Zeus (no mundo grego) e Júpiter (no mundo romano) são derivados de dei = brilhar.
Para os egípcios, o sol e a lua eram os olhos do deus celeste: “Quando abre os olhos, ele enche de luz o universo”.
O caráter espiritual da luz mostra-se no fato de ela ser a base do ver, do reconhecer.
Entre os gregos, Hélio tinha o apelido de panóptes, isto é, o que tudo vê.
O nome Osíris significa “lugar do olho” e seu hieróglifo é um olho sobre um trono.
No sentido físico, os olhos são a luz do corpo.
Então, no sentido físico também, a iluminação são os olhos do corpo do espetáculo.
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O som e o ouvido: simbologia e ciência
O som está na origem do cosmos.
Som, aum, om, linguagem.
Se a palavra, o verbo (vak), produz o universo, é através do efeito das vibrações rítmicas do som primordial (nada).
A prosopopeia da palavra no Rig-Veda.
Tudo o que é percebido com som é xácti, isto é, força divina.
O conhecimento não aparece só como uma visão, mas como uma percepção auditiva.
A disposição variável das caixas de som nos bastidores ou na plateia faz circular o som, instaura um percurso e desorienta o espectador.
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Luz: “O trabalho da iluminação não é iluminar um espaço escuro, mas, sim, criar a partir da luz”, Patrice Pavis.
Som: “Nossa percepção de espectador exige que as coisas sejam constituídas, não que sejam compostas”, N. Frize.
Ffobia Setor: o poder expressivo do corpo, da luz e do som
Corpo: o principal enunciador do espetáculo
Luz e som agindo como eles próprios
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Fim do espectador clássico, ancorado no real.
Surgimento do espectador instável, tanto um consumidor como um agente da diversidade dos “efeitos de realidade”
O espectador das culturas tecnológicas dos séculos XX e XXI
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Nossa realidade auditiva e luminosa
Erosão do princípio de realidade
Luz e som na vida real são imanentes; na arte, ainda são transcendentes?
O corpo artístico: torna mais durável ou estável a percepção do espectador?
O corpo moderno: desloca rapidamente os sentidos e os faz entrar em estado de obsolescência?
Som e luz no teatro demandam mais esforço motor ou energia psíquica?
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O que a iluminação inibe, o que ela exclui e o que ela torna periférico na visão do espectador.
O que não é percebido ou apenas vagamente percebido.
As distrações, as franjas e periferias do campo visual.
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A cena escura
A atenção como seleção significa que a percepção pode se dar por exclusão: levando a que partes da cena não sejam percebidas
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Performance como sensação
Memória, desejo, vontade, expectativa e experiência imediata
Performance, percepção e cognição
Contemplação dos seres, dos objetos, dos fazeres
Ffobia Setor como pura experiência
“Minha experiência é aquilo em que eu decido prestar atenção”, William James.
Fontes: CAMARGO, Roberto Gil. Função estética da luz. São Paulo: Perspectiva, 2012; CHEVALIER, Jean e GHEERBRANT, Alain. Dicionário de símbolos. Vários tradutores. Rio de Janeiro: José Olympio, 2012; CRARY, Jonathan. Suspensões da percepção: atenção, espetáculo e cultura moderna. Tradução por Tina Montenegro. São Paulo: Cosac Naify, 2013; CUNHA, Antônio Geraldo da. Dicionário etimológico da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Lexikon, 2010; LURKER, Manfred. Dicionário de simbologia. Tradução por Mario Krauss e Vera Barkow. São Paulo: Martins Fontes, 2003; PAVIS, Patrice. Dicionário de teatro. Tradução por J. Guinsburg e Maria Lúcia Pereira. São Paulo: Perspectiva, 2001.
Welington Andrade
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SOBRE TRANSTORNO DE MIRELLA BRANDI X MUEP ETMO
Existe algo mais inquieto na luz e som q quase sempre é esquecido nos espetáculos.
Se a luz é aquilo q oferece ao olhar o objeto ao qual se aponta, na essencialidade de ser tb linguagem estética cabe percebê-la luminosidade. Assim tb segue o som, q se expande para além das traduções identificáveis para se realizar sonoridade. Ocorre q toda linguagem é por si a instituição de informações. só se reconhece a linguagem quando dela se apreende sentidos. Mas isso serve sobretudo ao contexto das comunicações, e Deleuze já explodiu esse pensamento ao atribuir à arte a premissa de não ser obrigatoriamente comunicativa. Portanto, é fundamental instituir aos sentidos outras qualidades informativas q não sejam para o reconhecimento de linguagens já estruturadas.
É no invento de uma outra linguagem possível que Mirella Brandi e Muep Etmo criam em Transtorno atributos cognitivos e sensoriais para que luminosidade e sonoridade ergam ao espectador uma narrativa própria. Não se trata, pois, de conquistar a narrativa como resposta estética, mas de tornar a ação de construção de narrativa o próprio principio.
Tenho chamado a isso de narrativação. e é extremamente raro vê-la ocorrer com a qualidade com q esse dois artistas estão realizando.
Mudar a percepção da linguagem é realizar a impossibilidade de outra realidade.
Para isso serve a arte. para nos revelar o quanto ainda podemos ser radicalmente diferentes.
Ruy Filho
Editor chefe da revista de arte Antro Positivo
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CHUMBO e BRANCO
Vivenciando as duas performances no mesmo dia muitos sentimentos que não necessariamente são agradáveis de lidar apareceram. O ambiente esfumaçado, com a sequencia de luz e sons ativaram lembranças e sentimentos ocultos, o que gerou um medo, mas ao mesmo tempo uma excitação de entrar em um mundo individual diferente. Nesse mundo em que ao tentar aplicar os padrões anteriores saí frustrada, assim rapidamente tive que reaprender a pensar e reconstruir outras historias. É uma experiência desconfortável e inspiradora.
Para mim o Branco começou como um prólogo aonde exigia uma atenção e contemplação do que acontece ao redor, o que no dia-dia está cada vez mais difícil de conseguir, para mim ele é uma preparação e um convite para emergir ambiente. Chumbo veio para trazer o estranhamento e me tirar da zona de conforto levando-me a encontros que talvez não sejam agradáveis, porém necessários para o crescimento.
No meio da performance tive a vontade de fechar os olhos e isso trouxe uma outra percepção e percebi que a narrativa que estava tentando formular se complementava quando entrei em mim mesma. Assim, o trabalho me afetou não apenas no sentido visual, mas mais sutilmente em outros pontos do meu corpo, me levando à uma viagem pessoal. Em alguns momentos o ambiente se torna favorável para isso em outros as sequências me jogaram para um estado de alerta e angústia que também fazem parte do nosso corpo. A importância do corpo presente esta clara para mim pois cada pessoa da platéia ajuda na construção de uma história. Os movimentos dos espectadores que “brincam“ com as luzes e fumaças alteram o ambiente, tornando a performance única.
Eu fui ver esse trabalho junto com meu namorado que também é a artista e instrutor de meditação, eu em vários momentos de angústia e deslumbramento meu o vi meditando imerso em outro ambiente e narrativa próprias dele. Dessa forma percebi que a performance funciona como um “guia” ou um convite para nos adentrarmos em nós mesmos e ativar nossa criatividade gerando histórias próprias.
Quando saímos do Itaú Cultural demoramos um tempo para nos readaptar ao tempo cronológico e convenções sociais. Mas depois disso conversamos muito sobre as experiências que tivemos e acho que isso ajudou também na compreensão e absorção geral do trabalho.
Hoje , depois de alguns meses, entendo essa experiência imersiva como uma capsula de suspensão de tempo e realidade.
Eu não tive a oportunidade de ver o Cinza, mas ouvi falar muito a respeito ... Gostaria de ver a trilogia inteira em sequência, acho que seria uma experiencia de imersão e autoconhecimento muito forte.
Victoria Von Poser
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UCHRONIA
Uchronia is a feral, sexually-charged look at alternative realities. Framed by Mirella Brandi’s film noir lighting and using Natalia Mallo’s dark soundscapes, the effect is that of an almost David Lynchian mood. To an electro pulse, moodily lit by Brandi, blue-clad Australian dancer Brew emerges from the dark in his wheelchair. An intimate, powerhouse performance which sends shivers through the room and asks larger questions of what keeps people together.
Lorna Irvine
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RE-SIGNAGENS AUDIOVISUAIS
No mundo analógico, havia paradigmas interessantes. Havia ruído, quase sempre, tanto em som como em imagem. E a informação, tida como sinal, transitava entre circuitos e mídias, misturando-se a ruídos. Em termos técnicos, buscava-se a predominância do sinal sobre o ruído. A tal “relação sinal-ruído” era linha importante nas especificações de equipamento de áudio hi-fi (alta fidelidade). Como o termo não se presta apenas ao mundo técnico, cabe questionar qual “fidelidade” seria essa (num extremo: ao sinal ou ao ruído?), e essas e outras dicotomias entre o analógico e o digital podem se mostrar irrelevantes.
Em projetos como o On_Off, fica mais claro imaginar que o ruído pode ser informação, que pode haver algo mais nas entrelinhas dessa “signagem” e que a informação pode ser eloquente e expressiva mesmo onde o sinal é subtraído, em experiências que retomam elementos essenciais da imagem e do som, nas quais não cabe mais a oposição entre sinal e ruído, por exemplo.
A programação deste ano arrisca indícios de uma nova configuração do audiovisual ao vivo, em diálogo com possibilidades de enunciação do básico, do que ainda pode haver de específico nessas linguagens, ou “signagens”, como sugerido no título – e retomado no fim deste texto.
Novamente, neste ano temos uma apresentação inicial que despersonifica o artista. Em POWEr, do duo canadense Artificiel, o palco encontra-se vazio. O que vemos é talvez a situação mais emblemática possível para um projeto como o On_Off: uma faísca, capturada em plena descarga de uma grande bobina de Tesla. O acender e o apagar daquilo que é a essência fundamental dessas artes: a eletricidade. Por meio dela, aí sim, o transistor, o chip, a projeção, os zeros e uns do digital, a manipulação do ritmo, a suspensão do tempo, a construção de sentido.
Na segunda noite, temos uma apresentação que busca a essência da imagem: luz e sombra. Luz como partícula, como matéria em trânsito no espaço, visível, perceptível, tátil, como material bruto (e leve ao mesmo tempo), em estado essencial. O duo Mirella x Muep realiza uma performance inédita, em formato duplo, em cores de tonalidades igualmente básicas: BRANCO e CHUMBO.
O projeto encerra sua Trilogia das Cores (Branco, Cinza e Chumbo – de certa forma, entendidas como “não cores”), em uma narrativa audiovisual criada a partir de luz e som. Segundo os autores, uma cor que não é considerada cor pode transitar por locais múltiplos e, consequentemente, mais profundos e complexos sem que lhe atribuam características predefinidas ou estigmas que as encarceram. Uma não cor pode possuir em si todo o espectro visível e invisível. São dados o espaço e o tempo para imaginar. Há algo da alegoria da caverna de Platão, em um ambiente imersivo, hipnótico, preenchido pelos elementos mais primordiais do cinema.
Pois bem, signagem foi um termo difundido por Décio Pignatari para se referir a códigos icônicos e audiovisuais, que se diferenciariam dos códigos verbais. Aqui a referência teria a ver com construções em que o sentido é criado a partir do atrito de referências, em confluências de signos, em busca de uma relação sinal-ruído que permita que tudo signifique, de forma expressiva. Um complexo “intersigno”, como queria o poeta e semioticista.
Se o contexto e o objeto da “signagem pignatariana” era a TV, aqui é um conjunto de experiências visuais, que retomam formas expressivas sempre rejeitadas pela TV: o tempo morto (!?), a imagem incompleta, o intercâmbio som-imagem, a economia verbal, o flerte com funções cinemáticas essenciais, o encontro social como parte da fruição audiovisual, um desejo de sinestesia, a partilha de sensibilidades nesse processo todo.
Temos então um conjunto de apresentações que retomam a natureza eletroeletrônica embutida no digital. São fabulações em torno dos meios, da ecologia das mídias, da representação possível por meio de uma redução voluntária da informação. De volta ao básico, a uma essência perdida nos discursos de sedução. Em processos de experimentação genuína, convidam-nos a separar os meios de seu discurso automatizado.
Lucas Bambozzi
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CRUSH
Of all that I have seen lately in the Arts, CRUSH is undoubtedly the performance that offers the deepest and most peculiar aesthetic and sensorial experience to the spectator. It’s been a long time since I’ve encountered such an intriguing and innovative performance, which hypnotizes from first breath of air.
All technical aspects interact brilliantly to create the the atmosphere: from the first moment, when a soft light shines on the performer, we completely lose track of human anatomy and no longer know what “body” inhabits the stage or where each member is located, as thought we were in the presence of smoke with its ever changing nature. Later, a more abrupt moment, when a red light draws straight lines over the stage and audience, is underscored by a disturbing soundtrack. Bold in their choice of keeping the performer still for long moments, as happens near the end, when she stands downstage, facing the audience with an unquestionable presence.
CRUSH is a unique performance that produces elusive states and sensations in its audience, as a work art should do.
Rodrigo Pavon
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CRUSH
CRUSH is an extremely sensorial experience, in which the artists employ elements of trompe l’oeil leaving at times the spectator searching for answers in tenuous line between what’s real and what’s imaginary. Seeing, hearing and touching are exotically transformed, allowing one to almost “feel the whole”, for example, when the light takes over the entire performance environment in an untraditional way and simultaneously the sound produced touch the skin of those involved in the multimedia experience.
Ricardo Palmieri
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MAYBE
Mirella Brandi’s lighting design is depply effecting, heightening the emotions on display. The contrasts she renders between the blue-shirted Brew and the red-dresses Calazan, and the depth of the darkness created behind them, is exceptionally pretty.
Without wishing to be over the top, or to sensationalise wathing MAYBE is the closest experience observing a moving Caravaggio painting I can image. Brandi creates images that you just want to dive into, to be completely absorved by, to, in a short, fall in love with.
Andrew Edwards
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https://files.cargocollective.com/688979/MXM_criticas.pdf
English and Portugues
Axioma.8
Festival Música Estranha
O que percebemos quando percebemos? Da filosofia à fenomenologia, semiótica da cultura às teorias da comunicação, do biológico ao simbólico... as respostas seriam tantas que passaríamos o resto de nossas vidas discordando e concordando em iguais proporções. Por isso, mais do que buscar o entendimento sobre a percepção em si, o contemporâneo tem se apropriado dos argumentos e entregue aos artistas a função de provoca-lo, desconfiá-lo, desafiá-lo. Esse é o contexto intencional que Mirella e Muep constroem para suas apresentações. Sem qualquer pretensão de simplificar as experiências perceptivas, imagens e sons, luzes e ruídos são articulados afim de fundarem uma narrativa capaz de convidar as percepções a transformações. Suas instalações performativas bem podem ser compreendidas como performances instalativas sem qualquer perda conceitual, entendendo o próprio receptor ou público como objeto instalativo da performance. No entanto, o que se configura de modo mais profundo é a experienciação da narrativa naquilo que lhe confere um convívio fílmico, ou seja, mais próximo ao que temos comumente por cinematográfico. Uma espécie de cinema mental onde as imagens são individualizadas a partir das próprias sensações e traduzidas a uma narrativa intransferível, ainda que comum. O axioma trazido ao título do espetáculo lumino-sonoro está na dialética de ser o espectador um princípio de observação, portanto, e não apenas um mero receptor dos estímulos. Também por isso a narrativa é o aspecto mais complexo ao apresentado, uma vez caber-lhe a materialidade reveladora dos princípios norteadores dessa observação. Pode ser o 8o axioma, pode ser sua identificação infinita, propositadamente não se esclarece se numeral ou símbolo, deixando ao público individualizar a conclusão. Se contagem, então é preciso lidar com a existência de experiências anteriores, talvez até mesmo necessárias ao acesso mais profundo da narrativa. Se simbólico, o infinito qual representa olha ao por vir tendo o instante que se viverá como possibilidade de início. Escolhido um ou outro, encontra-se o indivíduo na urgência de sua tradução. Ou presentificando um roteiro, ou presentificando uma jornada. Assim, o espetáculo provoca, desde sempre, a presença do espectador enquanto objeto máximo de sua realidade. Lidando com matérias, sobretudo, luz e som, Mirella e Muep conquistam a ambiência como amplitude máxima para afirmação dessa realidade. Não mais a realidade qual estamos, mas outra, a qual compartilhamos em estado cênico de presença. Daí que som e luz são indissociáveis e parecem dançar suas materialidades aos ouvidos e olhos. Axioma.8 intensifica as experiências recentes dos dois artistas e revela uma maturidade especial no reconhecimento de suas próprias radicalidades, tornando-os especiais ao que podemos ainda descobrir nas artes brasileiras.
Revista ANTROPOSITIVO
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As a critic of the performing arts I have often accompanied the emergence of artist creations. A few times I come across original research, whose aesthetic proposals have a really unique signa- ture. This is exactly what happened with Mirella Brand and Muep Etmo.
Their performances build a specific ambience through the intersection between light and sound, offering the audience a unique radical and playful experience, capable of reinventing the under- standing of values such as scene, narrative, music, aesthetics, sign, presence, participation and so many other aspects . It is open shows to the cultures that are placed enlarging the dimension of the encounter between all the involved ones.
The experience provoked by their performances can extend to the audience of the performing arts the very language of the theater by being more expansive in front of the shows with
more recognizable and traditional characteristics. A great opportunity to offer other looks and openings, which seems to me to be always special to the fortifications of new spectators.
I hope the festival gets a kick out of this meeting with Brand and Etmo how much the artists have been encouraging me in the last year.
Ruy Filho
Member of the International Association of Theater Critics.
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Ao mergulhar numa performance de Mirella Brandi x Muepetmo ficamos cercados por uma outra realidade onde a luz e o som transformam todo o ambiente a nossa volta em imersivo e multidimensional sem a necessidade de vestirmos qualquer dispositivo tecnológico.
Ao proporcionar a diluição completa da janela cinematográfica, a narrativa abstrata proposta pelo duo coloca o espectador num embate direto com o espaço fílmico e sua imaginação como protagonista.
Demétrio Portugal
Curador e Idealizador do AVxLab
(Grupo de mapeamento e incentivo às pesquisas de Cinema Expandido)
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mirellaxmuep
A percepção do espetáculo-performance muda de acordo com a escolha onde sentamos: na platéia ou no próprio palco, juntos com os artistas. A subjetividade nesse espetáculo-performance fica mais aguçada e é preciso ver a obra mais de uma vez para que possamos degustá-la, para tornar-mos consciente da experiência vivida.
Enquanto público, ainda somos acostumados a perceber a luz cênica apenas como mero coadjuvante ou como parte de algo maior. Nós, enquanto espectadores, sempre enxergamos - mesmo que inconscientemente - a luz como se ela estivesse a serviço de uma outra arte “superior”. No dueto mirellaxmuep, isso felizmente não acontece. O dueto-dialogo é uma mistura perfeita entre luz e som. Em vários momentos temos a sensação de que a musica completa a luz e vice versa. É como se a sonoridade desse voz a luz para que ela pudesse se verbalizar ou simplesmente gritar: em formas, cores, volume e atmosfera. O que os artistas fazem no palco é muito mais do que uma performance de som e luz. O que eles fazem no palco é uma revolução. É a luz voltada para si, para o que ela tem a dizer e ser. Em A.N.T.E S, ela, a luz, não é a antagonista da noite, mas a protagonista.
Nesse flow entre luz e som que se auto-alimentam, vamos, aos poucos sendo“convidados” a uma viagem onde a percepção vai ganhando contornos de aspectos que nossa mente não conhecia anteriormente. Uma espécie de viagem-sensação semelhante ao sonho ou êxtase. Os artistas conseguem com poucos recursos - independente do espaço/teatro - criar um universo cinematográfico. Isso se chama criatividade. E parece que é aí, na falta, na escassez, na dificuldade que os artistas nutrem uma habilidade única de tecer o quase-impossível.
Em A.N.T.E S, a luz precisa do som, como o som precisa da luz. Uma existência no corpo de outro ser… O melhor dueto-diálogo-simbiose entre dois artistas de vanguarda.
Clébio Oliveira
Bailarino e çoreógrafo
www.clebio-oliveira.com" target="_blank">www.clebio-oliveira.com
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É no invento de uma outra linguagem possível que Mirella Brandi e Muep Etmo criam em Transtorno atributos cognitivos e sensoriais para que luminosidade e sonoridade ergam ao espectador uma narrativa própria. Não se trata, pois, de conquistar a narrativa como resposta estética, mas de tornar a ação de construção de narrativa o próprio principio.
Tenho chamado a isso de narrativação. e é extremamente raro vê-la ocorrer com a qualidade com q esse dois artistas estão realizando.
Mudar a percepção da linguagem é realizar a impossibilidade de outra realidade.
Para isso serve a arte. para nos revelar o quanto ainda podemos ser radicalmente diferentes.
Ruy Filho
Crítico e Editor chefe da revista de arte Antro Positivo Sobre o Espetáculo TRANSTORNO 2018
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Os espetáculos da Mirella e do Muep me tocaram primeiramente na minha fisiologia, me trouxeram sensações internas, viscerais ligadas aos meus orgãos, ao meu coração, às minhas vísceras, aos meus ossos. Uma experiência, muitas vezes desconfortável, pelo fato de não receber narrativas que eu possa decodificar num primeiro momento, ou algum formato mais reconhecido que possa me reconfortar. Mas é fascinante se deparar com o indecifrável.
Se entregar ao que é proposto possibilita entender o que é viver, literalmente, uma experiência cênica.
A dupla de artistas conduzem uma dramaturgia que acessou conteúdos meus, inconscientes, fez criar dentro de mim imagens, cenas e símbolos que em definitiva são como se eu assistisse a mim mesma. Esses conteúdos sempre surgem a cada novo espetáculo e vão criando em mim o desejo de permanecer alí por muito mais tempo e de esperar sempre ansiosa pelo próximo trabalho, pela próxima experiência viva que eles nos proporcionarão.
Natalia Mallo
Diretora Artística e Curadora de Artes Cênicas
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CRUSH
CRUSH is a courageous and provocative performance. Benefitting from the hybrid languages and from the varied uses of technological resources, the performance gathers powerfully contemporary qualities. Its experimental mark alters the event’s manifestation position, removed from the mere visibility on the stage to the creation of sensations derived from the spectator’s perception.
The performer’s body on the scene plays with duration, Intensity and scope of light and sound, both appropriate and uniquely operated at each performance. Dissimulation – to the point of making itself almost not visible – gives this body a prominence other than sheer physical virtuosity.
Therefore, in his perception, the spectator has no longer the role of witness: taken inside the performance, he becomes an accomplice.
José Tonezzi
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SET UP TO FAIL
Quando Richard Wagner construiu a ideia de uma obra total de arte tinha por princípio oferecer todas as possibilidades de experiências estéticas de uma única vez. Assim, simultâneas, elas haveriam de preencher o espectador de forma completa.
Ontem, porém, Mirella Brandi, Muep Etmo, Lucas Bambozzi, Natalia Mallo e uma dezena de convidados propuseram algo mais íntimo ao espectador trazendo uma a uma as experiências durante o percurso que realizamos pelos diversos espaços do edifício. Assim, imagem, som, luminosidade, ambiências, performatividade, presença são encontrados e se acumulam sem pressa na construção da narrativa fílmica que não se quer mais na tela, mas no próprio espectador e sua relação com o espaço. Somos e estamos personagens, portanto. Somos e estamos o próprio filme nos intervalos entre as instalações, vídeos, performer.
A graduação das experiências invade sutilmente, cumulam-se e a resposta é gigantesca. Saio do teatro querendo um pouco de silêncio em mim, volto para casa caminhando e percebendo a cidade diferente. Ela também me parece um filme em construção. Como nunca havia sentido isso?
Quando pensamos sobre espetáculos cênicos logo imaginamos produções impactantes. Mas e quando forem espetáculos fílmicos, que não se resumem às telas e projeções?
Não tenho como agradecer o grau de deslocamento de meu olhar sobre o real, o entorno, a estética viva da vida, a ficcionalização de minha presença no real, que esses artistas me trouxeram.
Muitos me pedem dicas do que assistir, então, aviso, não percam!
Ruy Filho
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Sobre FFobia Setor:
FOTOFONOFÓBICOSOMÁTICO
mirella brandi x muepetmo
por: Welington Andrade
“... o espectador deixava-se arrastar pelo jogo de sensações, de percepções experimentadas. A dimensão cognitiva que permanecia presente revela-se inoperante pelo fato de não esclarecer minimamente o espetáculo. O espectador era antes confrontado com uma instalação espacial que o incluía e o excluía ao mesmo tempo. Ele não tinha que compreender nada, mas sim experimentar”. Josette Féral, Além dos limites: teoria e prática do teatro.
Fot(o), elemento de composição
Phos, photós, em grego: luz
Foto: que se documenta em numerosos compostos introduzidos nas línguas modernas de cultura, a partir do século XIX, como fotografia, fotometria, fotosfera etc.
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Fon(o), elemento de composição
Phoné, em grego: som, voz
Fone: que se documenta em vocábulos eruditos, alguns formados no próprio grego, como fonético, e alguns outros introduzidos, a partir do século XIX, na linguagem científica internacional.
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Fob(o), elemento de composição
Phóbos, em grego: medo, pavor
Fobia: designação genérica das diferentes espécies de medo mórbido
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Som(a), elemento de composição
Soma, -atos, em grego: o corpo em oposição à alma
Somático: relativo ao corpo
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Corpo
Somatizando luz e som
Fotofilia expressando fotofobias
Fonofilias expressando fonofobias
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Luz-símbolo
Luz-metáfora
Luz-limite
Luz-resultado
Corpo fobicamente disforme
Luz: primeiro aspecto do mundo informe
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“Embrenhando-se na sua direção, entra-se num caminho que parece poder levar além da luz, isto é, além de toda forma, mas, igualmente, além de toda sensação e de todo conceito”. André Virel, Histoire de notre image.
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Som-símbolo
Som-metáfora
Som-movimento rítmico
Som-movimento vibratório
Corpo não manifestado, corpo sutil, corpo articulado
O que é desprovido de som é o próprio princípio
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“O som é percebido antes da forma, a audição é anterior à visão. De shabda nasce o bindu, ou germe da manifestação. Por analogia, o nascimento individual é às vezes designado como um som”. Jean Chevalier e Alain Gheerbrant, Dicionário de símbolos.
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A luz e o olho: simbologia e ciência
Serafis e Ísis no antigo Egito eram chamados de phos.
Os nomes dos deuses celestes indo-europeus Dyaus pitar (no mundo védico), Zeus (no mundo grego) e Júpiter (no mundo romano) são derivados de dei = brilhar.
Para os egípcios, o sol e a lua eram os olhos do deus celeste: “Quando abre os olhos, ele enche de luz o universo”.
O caráter espiritual da luz mostra-se no fato de ela ser a base do ver, do reconhecer.
Entre os gregos, Hélio tinha o apelido de panóptes, isto é, o que tudo vê.
O nome Osíris significa “lugar do olho” e seu hieróglifo é um olho sobre um trono.
No sentido físico, os olhos são a luz do corpo.
Então, no sentido físico também, a iluminação são os olhos do corpo do espetáculo.
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O som e o ouvido: simbologia e ciência
O som está na origem do cosmos.
Som, aum, om, linguagem.
Se a palavra, o verbo (vak), produz o universo, é através do efeito das vibrações rítmicas do som primordial (nada).
A prosopopeia da palavra no Rig-Veda.
Tudo o que é percebido com som é xácti, isto é, força divina.
O conhecimento não aparece só como uma visão, mas como uma percepção auditiva.
A disposição variável das caixas de som nos bastidores ou na plateia faz circular o som, instaura um percurso e desorienta o espectador.
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Luz: “O trabalho da iluminação não é iluminar um espaço escuro, mas, sim, criar a partir da luz”, Patrice Pavis.
Som: “Nossa percepção de espectador exige que as coisas sejam constituídas, não que sejam compostas”, N. Frize.
Ffobia Setor: o poder expressivo do corpo, da luz e do som
Corpo: o principal enunciador do espetáculo
Luz e som agindo como eles próprios
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Fim do espectador clássico, ancorado no real.
Surgimento do espectador instável, tanto um consumidor como um agente da diversidade dos “efeitos de realidade”
O espectador das culturas tecnológicas dos séculos XX e XXI
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Nossa realidade auditiva e luminosa
Erosão do princípio de realidade
Luz e som na vida real são imanentes; na arte, ainda são transcendentes?
O corpo artístico: torna mais durável ou estável a percepção do espectador?
O corpo moderno: desloca rapidamente os sentidos e os faz entrar em estado de obsolescência?
Som e luz no teatro demandam mais esforço motor ou energia psíquica?
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O que a iluminação inibe, o que ela exclui e o que ela torna periférico na visão do espectador.
O que não é percebido ou apenas vagamente percebido.
As distrações, as franjas e periferias do campo visual.
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A cena escura
A atenção como seleção significa que a percepção pode se dar por exclusão: levando a que partes da cena não sejam percebidas
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Performance como sensação
Memória, desejo, vontade, expectativa e experiência imediata
Performance, percepção e cognição
Contemplação dos seres, dos objetos, dos fazeres
Ffobia Setor como pura experiência
“Minha experiência é aquilo em que eu decido prestar atenção”, William James.
Fontes: CAMARGO, Roberto Gil. Função estética da luz. São Paulo: Perspectiva, 2012; CHEVALIER, Jean e GHEERBRANT, Alain. Dicionário de símbolos. Vários tradutores. Rio de Janeiro: José Olympio, 2012; CRARY, Jonathan. Suspensões da percepção: atenção, espetáculo e cultura moderna. Tradução por Tina Montenegro. São Paulo: Cosac Naify, 2013; CUNHA, Antônio Geraldo da. Dicionário etimológico da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Lexikon, 2010; LURKER, Manfred. Dicionário de simbologia. Tradução por Mario Krauss e Vera Barkow. São Paulo: Martins Fontes, 2003; PAVIS, Patrice. Dicionário de teatro. Tradução por J. Guinsburg e Maria Lúcia Pereira. São Paulo: Perspectiva, 2001.
Welington Andrade
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SOBRE TRANSTORNO DE MIRELLA BRANDI X MUEP ETMO
Existe algo mais inquieto na luz e som q quase sempre é esquecido nos espetáculos.
Se a luz é aquilo q oferece ao olhar o objeto ao qual se aponta, na essencialidade de ser tb linguagem estética cabe percebê-la luminosidade. Assim tb segue o som, q se expande para além das traduções identificáveis para se realizar sonoridade. Ocorre q toda linguagem é por si a instituição de informações. só se reconhece a linguagem quando dela se apreende sentidos. Mas isso serve sobretudo ao contexto das comunicações, e Deleuze já explodiu esse pensamento ao atribuir à arte a premissa de não ser obrigatoriamente comunicativa. Portanto, é fundamental instituir aos sentidos outras qualidades informativas q não sejam para o reconhecimento de linguagens já estruturadas.
É no invento de uma outra linguagem possível que Mirella Brandi e Muep Etmo criam em Transtorno atributos cognitivos e sensoriais para que luminosidade e sonoridade ergam ao espectador uma narrativa própria. Não se trata, pois, de conquistar a narrativa como resposta estética, mas de tornar a ação de construção de narrativa o próprio principio.
Tenho chamado a isso de narrativação. e é extremamente raro vê-la ocorrer com a qualidade com q esse dois artistas estão realizando.
Mudar a percepção da linguagem é realizar a impossibilidade de outra realidade.
Para isso serve a arte. para nos revelar o quanto ainda podemos ser radicalmente diferentes.
Ruy Filho
Editor chefe da revista de arte Antro Positivo
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CHUMBO e BRANCO
Vivenciando as duas performances no mesmo dia muitos sentimentos que não necessariamente são agradáveis de lidar apareceram. O ambiente esfumaçado, com a sequencia de luz e sons ativaram lembranças e sentimentos ocultos, o que gerou um medo, mas ao mesmo tempo uma excitação de entrar em um mundo individual diferente. Nesse mundo em que ao tentar aplicar os padrões anteriores saí frustrada, assim rapidamente tive que reaprender a pensar e reconstruir outras historias. É uma experiência desconfortável e inspiradora.
Para mim o Branco começou como um prólogo aonde exigia uma atenção e contemplação do que acontece ao redor, o que no dia-dia está cada vez mais difícil de conseguir, para mim ele é uma preparação e um convite para emergir ambiente. Chumbo veio para trazer o estranhamento e me tirar da zona de conforto levando-me a encontros que talvez não sejam agradáveis, porém necessários para o crescimento.
No meio da performance tive a vontade de fechar os olhos e isso trouxe uma outra percepção e percebi que a narrativa que estava tentando formular se complementava quando entrei em mim mesma. Assim, o trabalho me afetou não apenas no sentido visual, mas mais sutilmente em outros pontos do meu corpo, me levando à uma viagem pessoal. Em alguns momentos o ambiente se torna favorável para isso em outros as sequências me jogaram para um estado de alerta e angústia que também fazem parte do nosso corpo. A importância do corpo presente esta clara para mim pois cada pessoa da platéia ajuda na construção de uma história. Os movimentos dos espectadores que “brincam“ com as luzes e fumaças alteram o ambiente, tornando a performance única.
Eu fui ver esse trabalho junto com meu namorado que também é a artista e instrutor de meditação, eu em vários momentos de angústia e deslumbramento meu o vi meditando imerso em outro ambiente e narrativa próprias dele. Dessa forma percebi que a performance funciona como um “guia” ou um convite para nos adentrarmos em nós mesmos e ativar nossa criatividade gerando histórias próprias.
Quando saímos do Itaú Cultural demoramos um tempo para nos readaptar ao tempo cronológico e convenções sociais. Mas depois disso conversamos muito sobre as experiências que tivemos e acho que isso ajudou também na compreensão e absorção geral do trabalho.
Hoje , depois de alguns meses, entendo essa experiência imersiva como uma capsula de suspensão de tempo e realidade.
Eu não tive a oportunidade de ver o Cinza, mas ouvi falar muito a respeito ... Gostaria de ver a trilogia inteira em sequência, acho que seria uma experiencia de imersão e autoconhecimento muito forte.
Victoria Von Poser
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UCHRONIA
Uchronia is a feral, sexually-charged look at alternative realities. Framed by Mirella Brandi’s film noir lighting and using Natalia Mallo’s dark soundscapes, the effect is that of an almost David Lynchian mood. To an electro pulse, moodily lit by Brandi, blue-clad Australian dancer Brew emerges from the dark in his wheelchair. An intimate, powerhouse performance which sends shivers through the room and asks larger questions of what keeps people together.
Lorna Irvine
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RE-SIGNAGENS AUDIOVISUAIS
No mundo analógico, havia paradigmas interessantes. Havia ruído, quase sempre, tanto em som como em imagem. E a informação, tida como sinal, transitava entre circuitos e mídias, misturando-se a ruídos. Em termos técnicos, buscava-se a predominância do sinal sobre o ruído. A tal “relação sinal-ruído” era linha importante nas especificações de equipamento de áudio hi-fi (alta fidelidade). Como o termo não se presta apenas ao mundo técnico, cabe questionar qual “fidelidade” seria essa (num extremo: ao sinal ou ao ruído?), e essas e outras dicotomias entre o analógico e o digital podem se mostrar irrelevantes.
Em projetos como o On_Off, fica mais claro imaginar que o ruído pode ser informação, que pode haver algo mais nas entrelinhas dessa “signagem” e que a informação pode ser eloquente e expressiva mesmo onde o sinal é subtraído, em experiências que retomam elementos essenciais da imagem e do som, nas quais não cabe mais a oposição entre sinal e ruído, por exemplo.
A programação deste ano arrisca indícios de uma nova configuração do audiovisual ao vivo, em diálogo com possibilidades de enunciação do básico, do que ainda pode haver de específico nessas linguagens, ou “signagens”, como sugerido no título – e retomado no fim deste texto.
Novamente, neste ano temos uma apresentação inicial que despersonifica o artista. Em POWEr, do duo canadense Artificiel, o palco encontra-se vazio. O que vemos é talvez a situação mais emblemática possível para um projeto como o On_Off: uma faísca, capturada em plena descarga de uma grande bobina de Tesla. O acender e o apagar daquilo que é a essência fundamental dessas artes: a eletricidade. Por meio dela, aí sim, o transistor, o chip, a projeção, os zeros e uns do digital, a manipulação do ritmo, a suspensão do tempo, a construção de sentido.
Na segunda noite, temos uma apresentação que busca a essência da imagem: luz e sombra. Luz como partícula, como matéria em trânsito no espaço, visível, perceptível, tátil, como material bruto (e leve ao mesmo tempo), em estado essencial. O duo Mirella x Muep realiza uma performance inédita, em formato duplo, em cores de tonalidades igualmente básicas: BRANCO e CHUMBO.
O projeto encerra sua Trilogia das Cores (Branco, Cinza e Chumbo – de certa forma, entendidas como “não cores”), em uma narrativa audiovisual criada a partir de luz e som. Segundo os autores, uma cor que não é considerada cor pode transitar por locais múltiplos e, consequentemente, mais profundos e complexos sem que lhe atribuam características predefinidas ou estigmas que as encarceram. Uma não cor pode possuir em si todo o espectro visível e invisível. São dados o espaço e o tempo para imaginar. Há algo da alegoria da caverna de Platão, em um ambiente imersivo, hipnótico, preenchido pelos elementos mais primordiais do cinema.
Pois bem, signagem foi um termo difundido por Décio Pignatari para se referir a códigos icônicos e audiovisuais, que se diferenciariam dos códigos verbais. Aqui a referência teria a ver com construções em que o sentido é criado a partir do atrito de referências, em confluências de signos, em busca de uma relação sinal-ruído que permita que tudo signifique, de forma expressiva. Um complexo “intersigno”, como queria o poeta e semioticista.
Se o contexto e o objeto da “signagem pignatariana” era a TV, aqui é um conjunto de experiências visuais, que retomam formas expressivas sempre rejeitadas pela TV: o tempo morto (!?), a imagem incompleta, o intercâmbio som-imagem, a economia verbal, o flerte com funções cinemáticas essenciais, o encontro social como parte da fruição audiovisual, um desejo de sinestesia, a partilha de sensibilidades nesse processo todo.
Temos então um conjunto de apresentações que retomam a natureza eletroeletrônica embutida no digital. São fabulações em torno dos meios, da ecologia das mídias, da representação possível por meio de uma redução voluntária da informação. De volta ao básico, a uma essência perdida nos discursos de sedução. Em processos de experimentação genuína, convidam-nos a separar os meios de seu discurso automatizado.
Lucas Bambozzi
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CRUSH
Of all that I have seen lately in the Arts, CRUSH is undoubtedly the performance that offers the deepest and most peculiar aesthetic and sensorial experience to the spectator. It’s been a long time since I’ve encountered such an intriguing and innovative performance, which hypnotizes from first breath of air.
All technical aspects interact brilliantly to create the the atmosphere: from the first moment, when a soft light shines on the performer, we completely lose track of human anatomy and no longer know what “body” inhabits the stage or where each member is located, as thought we were in the presence of smoke with its ever changing nature. Later, a more abrupt moment, when a red light draws straight lines over the stage and audience, is underscored by a disturbing soundtrack. Bold in their choice of keeping the performer still for long moments, as happens near the end, when she stands downstage, facing the audience with an unquestionable presence.
CRUSH is a unique performance that produces elusive states and sensations in its audience, as a work art should do.
Rodrigo Pavon
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CRUSH
CRUSH is an extremely sensorial experience, in which the artists employ elements of trompe l’oeil leaving at times the spectator searching for answers in tenuous line between what’s real and what’s imaginary. Seeing, hearing and touching are exotically transformed, allowing one to almost “feel the whole”, for example, when the light takes over the entire performance environment in an untraditional way and simultaneously the sound produced touch the skin of those involved in the multimedia experience.
Ricardo Palmieri
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MAYBE
Mirella Brandi’s lighting design is depply effecting, heightening the emotions on display. The contrasts she renders between the blue-shirted Brew and the red-dresses Calazan, and the depth of the darkness created behind them, is exceptionally pretty.
Without wishing to be over the top, or to sensationalise wathing MAYBE is the closest experience observing a moving Caravaggio painting I can image. Brandi creates images that you just want to dive into, to be completely absorved by, to, in a short, fall in love with.
Andrew Edwards
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https://files.cargocollective.com/688979/MXM_criticas.pdf





















